Foi mandada construir, nos
últimos anos da década de 1920, pelo 3º Visconde de Villar d'Allen
para sua residência, coincidindo com uma época em que o Porto
assistia ao surgimento de uma série de palacetes, que imprimiram à
cidade uma marca burguesa. Com ligações à Casa Ramos Pinto (através
de laços matrimoniais e comerciais), Joaquim Ayres de Gouveia
Allen, engenheiro de formação e cônsul da Bélgica no Porto, é
definido como um "misto de aristocrata e capitalista". O projecto
para a sua casa de habitação foi concebido pelo arquitecto José
Marques da Silva (1869-1947).
Os primeiros desenhos estavam
concluídos em Abril de 1927, mas o casal Allen foi introduzindo
múltiplas alterações ao projecto inicial que, de forma genérica, se
prendiam com o hall de distribuição do espaço interno e com a
localização da capela, que se pretendia de acesso directo ao
exterior, sendo que todas estas questões acabaram por se reflectir
na própria concepção das fachadas, também sucessivamente alteradas.
Na sua Dissertação de Doutoramento, António Cardoso analisa este
programa, considerando o Petit Trianon, de Versalhes, como o modelo
principal da Casa Allen, numa escolha cuja responsabilidade imputa
ao encomendador, e da qual resultou uma "imagem mitigada e
adulterada de um Petit Trianon, agora portuense, numa linguagem
academizante e involutiva".
A planta estrutura-se em
torno do hall central, a que se acede através da fachada principal,
virada para a rua, e da fachada Sul, cuja monumentalidade acaba por
inverter a importância dos alçados, quase anulando o principal. A
capela abre-se no alçado Norte, que se articula em três corpos
diferenciados.
Ambas as fachadas, de
aparelho rusticado, caracterizam-se pela simetria na abertura dos
vãos, pelos remates em platibanda, que quase cobrem o telhado, e
pelos pórticos, numa linguagem de cariz neoclássico. De acordo com
António Cardoso, reside na concepção destes alçados, de leitura
equívoca em relação ao interior, uma das novidades do projecto: "a
suposta ambiguidade das fachadas significava, afinal, a sua visão
totalizadora, uma nova concepção do projecto, e uma nova forma de
abordagem". Os jardins, que aproveitam três frentes da casa,
distribuem-se da seguinte forma: na entrada e na área lateral Sul,
respeitam um esquema racional, e na zona posterior invocam a
influência inglesa.
Naturalmente, os projectos
para habitações particulares revestem-se de algumas pré
determinações, impostas pelos proprietários; facto de grande
significado para a análise e contextualização da obra. No que
respeita à Casa Allen encontramos vários destes particularismos e,
quer de um ponto de vista da integração do edifício no conjunto de
obras de Marques da Silva, quer num contexto da própria cidade, a
verdade é que o imóvel acaba por se salientar, reflectindo o gosto
do seu encomendador. De facto, os eclectismos, e neste caso, os de
sabor neoclássico, prolongaram-se, no nosso país, até à década de
1920 mas, de acordo com António Cardoso, a marca ecléctica e
neoclássica da Casa Allen constituiu uma expressão academizante no
conjunto da obra de Marques da Silva. Por outro lado, nestes anos
20, o imóvel é quase uma excepção na própria dinâmica de opções
arquitectónicas da cidade do Porto. Muito embora possamos encontrar
pontos de contacto com a Casa de Serralves, do mesmo autor, as
linhas art déco desta última assumem-se como um dos mais
significativos exemplos desta estética no nosso país, afastando-se
dos modelos da Casa Allen. Em todo o caso, não deixa de constituir
um importante marco arquitectónico e urbanístico da cidade do
Porto.
Mais recentemente, em 1991,
foi construída, nos seus jardins, a Casa das Artes, projecto do
Eduardo Souto Moura (com data de 1980). A qualidade desta
arquitectura, com as características fachadas cegas deste autor,
mas abrindo-se para a cidade com a fachada em vidro, a Norte,
mereceu a Souto Moura o Prémio Secil.
Fonte: (RC) /
IPPAR
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