A
história da Quinta da Companhia, que deve a sua
designação à Companhia de Jesus (original
possuidora desta propriedade), encontra-se intimamente associada
à história do Mosteiro de São Salvador de
Paço de Sousa, a partir do século XVI, quando o
Cardeal D. Henrique foi abade-comendatário desta casa
religiosa. De facto, o futuro regente e rei encontra-se no centro
da questão que envolveu os monges beneditinos de Paço
de Sousa e os jesuítas.
D.
Henrique tornou-se abade-comendatário deste convento em
1535, cargo que trocou, três anos mais tarde, pelo do
Mosteiro de Castro de Avelães, regressando a Paço de
Sousa em 1560. A cedência dos direitos comendatários
à Companhia de Jesus é posterior. No contexto da
reforma dos mosteiros de S. Bento, o Papa Pio V ordenou que todas
as casas que não pudessem ser reformadas, fossem cedidas a
outras ordens, o que veio a acontecer a Paço de Sousa,
entregue à Companhia de Jesus, ou mais precisamente, ao
colégio do Espírito Santo de Évora, em 1570.
Contudo, os beneditinos opuseram-se a esta resolução
e, em 1578, o Papa Gregório XIII acabou por anular a
anterior disposição, cedendo à Companhia
apenas a renda da mesa abacial. Aos beneditinos cabia a posse do
mosteiro e a renda da mesa conventual, em todo o caso, bastante
inferior à dos jesuítas.
Uma vez
que os religiosos de São Bento conservavam as
instalações conventuais, os jesuítas viram-se
obrigados a construir uma casa professa e respectivo celeiro, que
correspondem, hoje, à Casa da Companhia. Os terrenos para
concretizar este empreendimento foram trocados com o mosteiro. Com
a extinção da Companhia, em 1759, esta propriedade
(com os foros da Mesa Abacial) foi adquirida pelo negociante
José de Azevedo e Sousa, de Vila Nova de Gaia, que instituiu
os bens em Morgado, deixando-o à sua segunda filha. A
família manteve a Quinta na sua posse e, na segunda metade
do século XIX foi, precisamente, um dos seus descendentes o
responsável pelas profundas obras de
remodelação da Casa, Diogo Leite Pereira de Melo,
fidalgo da casa Real e presidente da Câmara de Vila Nova de
Gaia. Contudo, a intervenção não foi
tão vasta quanto o desejava Diogo Leite, uma vez que os
planos iniciais não puderam ser cumpridos por falta de
recursos financeiros. Com a sua morte a Quinta foi vendida e o novo
proprietário realizou uma série de reformas, que
incidiram, principalmente, ao nível do
interior.
O acesso
à Quinta faz-se através de um portão
recortado, ladeado por pináculos e coroado por pedra de
armas. A fachada principal desenvolve-se em três pisos e
é aberta por uma série de vãos,
simétricos. O acesso ao primeiro piso é feito
através de uma escadaria exterior, de desenho irregular, de
lanços convergentes (dois de um lado e apenas um do
outro).
Paralela
à fachada, encontra-se ainda a capela, de nave única
e coro alto que comunica com o piso intermédio do
edifício de habitação. O alçado
principal deste pequeno templo é flanqueado por duas
pilastras cunhais, encimadas por pináculos e, ao centro,
abre-se o portal, rematado por frontão curvo, interrompido
por pinha, ao qual se sobrepõe um óculo. No interior,
destaca-se o retáblo-mor, de talha dourada que se insere
ainda num contexto seiscentista, ou proto-barroco, bem como o
tecto, em caixotões, dourado e
policromado.
Como
já referimos, a casa foi objecto de profundas
modificações entre os séculos XIX e XX, que
lhe conferiram um aspecto mais próximo do
neoclássico. Contudo, a capela conservou o traçado
depurado e maneirista da época da sua
construção. Ela é a mais viva memória
da antiga vivência jesuíta, a par do celeiro, de
características funcionais e implantado a Sul da
habitação actual.
A Quinta
desenvolve-se nos terrenos que cercam a casa, integrando
espaços ajardinados, e a mata, onde é possível
encontrar várias árvores centenárias e alguns
locais de lazer, entre os quais destacamos a denominada Fonte dos
Frades.

Texto: (RCarvalho) -
IPPAR
Fotos: DGEMN: DSID
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